" Existia um homem que tinha um poder. Ele demonstrava uma segurança no seu caminhar, mas que sumia quando alguém fazia contato visual com ele. Era só olhar para os seus olhos que notava-se que ele não era alguém muito confiante, mas ele era diferente. Era um daqueles homens bonitos, que podem ter a mulher que quiserem. Tinha um sorriso aparentemente esnobe, mas verdadeiro - não era daqueles que sorriam gratuitamente. Era alto, alto o suficiente para fazer alguém perder as palavras perto dele. O cabelo era loiro, e enfeitava seu rosto, assim como sua barba. Os olhos eram azuis, penetrantes. Era um homem comum. Ou pelo menos parecia. Aqueles olhos azuis e penetrantes, que demonstravam a insegurança que ele tinha, eram olhos diferentes dos demais. Aquele homem não era um homem qualquer. Ele tinha um poder. Ele podia ver coisas que ninguém podia. Aqueles olhos penetrantes e inseguros eram olhos de raio-x.
De longe, ele só chamava a atenção pela sua beleza. Uma beleza desconcertante, mas que também era comum. Mas ele, ah, não era nada cliché. Ele sabia o que as outras pessoas pensavam e imaginavam, sem precisar conversar com essas pessoas. Olhava as pessoas de uma maneira que só ele sabia olhar - porque os olhos dele eram especiais. Ele não via o exterior, ele via a alma das pessoas. Conversava com as pessoas sem precisar trocar palavras. E até mesmo aqueles que não sabiam do poder desse homem, sabiam que ele tinha algo diferente no olhar. O olhar dele transmitia uma mensagem de compreensão. Ele lia os desejos dos outros. Ele sabia o que os outros queriam ouvir. Ele entendia os outros. E ele sabia disso.
Durante algum tempo, eu o encontrava na rua. Eu o conhecia devido a sua beleza, que chamava até a minha atenção, mas nunca o notei, justamente por julgá-lo comum. Até que eu vi os olhos dele. Eu senti a diferença. Mas não sabia explicar que diferença era essa. Por alguns segundos, quando os meus olhos encontraram os dele, eu senti que era como se ele tivesse lido minha mente. Senti como se tivéssemos conversado sem nem nos conhecermos. E ele sabia o que eu pensava, assim como sabia o que os outros todos pensavam.
Os olhos de raio-x captavam os sentimentos alheios. Era como se, no mundo todo, ele era a única pessoa que pudesse saber o que há dentro das pessoas, sem precisar querer saber disso. Ele somente olhava. Observava as pessoas e, automaticamente, as conhecia. Mas não gostava disso. As vezes, nem entendia porque ele era assim. Ele queria ser como os outros. E ler as paranóias alheias era algo chato, embora fosse útil. Ele não queria conhecer os segredos das pessoas. Só queria ser normal - comum, como ele, de longe, aparentava ser.
Esse homem não gostava de conhecer inteiramente as pessoas, porque sabendo como elas eram, ele não se encantava. A visão raio-x impossibilitava o encanto do desconhecido. Não confiava em praticamente ninguém, pois sabia quem era e quem não era digno de confiança. Não se encantava com a beleza exterior das mulheres, pois via a interior. Não tinha muitos amigos, pois o seu olhar, embora inseguro, era intimidante, e a maioria das pessoas tem medo de ter seus segredos revelados. Ele não tinha como se surpreender, pois conhecia até os segredos mais íntimos das pessoas. E viveu assim, a vida inteira, sabendo como agradar, sabendo o que os outros queriam - embora não fosse isso o que desejava.
A vontade de ser comum passou a ser a realidade. Com o tempo, aqueles olhos penetrantes perderam seu poder. Um dia, ele acordou como ele queria ser. A visão raio-x se foi, mas seu olhar permaneceu penetrante. Passou assim a não agradar ninguém e a viver uma vida comum, errando, se surpreendendo, descobrindo. Sem o seu poder, passou a desvendar os segredos das pessoas, com o tempo, sem conhecê-los antes. Não via mais a beleza interior, ele precisava descobrir essa beleza. Assim, todos os que o olhavam nos olhos, já não sentiam o que antes era inexplicável. Ele não conhecia mais ninguém, não conversava com ninguém.
A vida foi ficando difícil e comum. Agora, ele precisava arriscar, para depois saber se obteria o sucesso ou o fracasso nos seus relacionamentos. As dificuldades foram aparecendo. Antes, ele não precisava se esforçar para agradar, muito menos se arriscar para conhecer as pessoas - mas não gostava de conviver com isso, pois achava que assim era a maneira complicada de se viver. Ele queria as emoções que as pessoas comuns têm. Ele acreditava que, sendo comum, as coisas seriam mais fáceis, pois estaria vivendo como todos os outros vivem. Foi quando ele viu que o que todos desejam é ter o fácil. O que todos desejam é ter suas mentes compreendidas sem precisar arriscar a se entregar. O que todos queriam eram ser interpretados sem precisar expor a sua intimidade. Os olhos de raio-x que ele tinha, encantavam as pessoas porque ele as entendia. Agora, sem a visão raio-x, ele não as conquistava antes de conhecê-las. Foi só aí que entendeu que a maneira que vivia era, na verdade, a maneira mais simples. Ele desejou ter o que ele já tinha: o fácil. Agora, ele vivia como todo mundo, sem saber o que esperar dos outros. Vivendo a maneira difícil de se viver. A única coisa que ele sabe agora é que se deve pensar bem antes de se desejar algo, pois, muitas vezes, o que parece ser fácil, não é. "
Texto em homenagem aos olhos azuis, que são sempre belos poemas.
De longe, ele só chamava a atenção pela sua beleza. Uma beleza desconcertante, mas que também era comum. Mas ele, ah, não era nada cliché. Ele sabia o que as outras pessoas pensavam e imaginavam, sem precisar conversar com essas pessoas. Olhava as pessoas de uma maneira que só ele sabia olhar - porque os olhos dele eram especiais. Ele não via o exterior, ele via a alma das pessoas. Conversava com as pessoas sem precisar trocar palavras. E até mesmo aqueles que não sabiam do poder desse homem, sabiam que ele tinha algo diferente no olhar. O olhar dele transmitia uma mensagem de compreensão. Ele lia os desejos dos outros. Ele sabia o que os outros queriam ouvir. Ele entendia os outros. E ele sabia disso.
Durante algum tempo, eu o encontrava na rua. Eu o conhecia devido a sua beleza, que chamava até a minha atenção, mas nunca o notei, justamente por julgá-lo comum. Até que eu vi os olhos dele. Eu senti a diferença. Mas não sabia explicar que diferença era essa. Por alguns segundos, quando os meus olhos encontraram os dele, eu senti que era como se ele tivesse lido minha mente. Senti como se tivéssemos conversado sem nem nos conhecermos. E ele sabia o que eu pensava, assim como sabia o que os outros todos pensavam.
Os olhos de raio-x captavam os sentimentos alheios. Era como se, no mundo todo, ele era a única pessoa que pudesse saber o que há dentro das pessoas, sem precisar querer saber disso. Ele somente olhava. Observava as pessoas e, automaticamente, as conhecia. Mas não gostava disso. As vezes, nem entendia porque ele era assim. Ele queria ser como os outros. E ler as paranóias alheias era algo chato, embora fosse útil. Ele não queria conhecer os segredos das pessoas. Só queria ser normal - comum, como ele, de longe, aparentava ser.
Esse homem não gostava de conhecer inteiramente as pessoas, porque sabendo como elas eram, ele não se encantava. A visão raio-x impossibilitava o encanto do desconhecido. Não confiava em praticamente ninguém, pois sabia quem era e quem não era digno de confiança. Não se encantava com a beleza exterior das mulheres, pois via a interior. Não tinha muitos amigos, pois o seu olhar, embora inseguro, era intimidante, e a maioria das pessoas tem medo de ter seus segredos revelados. Ele não tinha como se surpreender, pois conhecia até os segredos mais íntimos das pessoas. E viveu assim, a vida inteira, sabendo como agradar, sabendo o que os outros queriam - embora não fosse isso o que desejava.
A vontade de ser comum passou a ser a realidade. Com o tempo, aqueles olhos penetrantes perderam seu poder. Um dia, ele acordou como ele queria ser. A visão raio-x se foi, mas seu olhar permaneceu penetrante. Passou assim a não agradar ninguém e a viver uma vida comum, errando, se surpreendendo, descobrindo. Sem o seu poder, passou a desvendar os segredos das pessoas, com o tempo, sem conhecê-los antes. Não via mais a beleza interior, ele precisava descobrir essa beleza. Assim, todos os que o olhavam nos olhos, já não sentiam o que antes era inexplicável. Ele não conhecia mais ninguém, não conversava com ninguém.
A vida foi ficando difícil e comum. Agora, ele precisava arriscar, para depois saber se obteria o sucesso ou o fracasso nos seus relacionamentos. As dificuldades foram aparecendo. Antes, ele não precisava se esforçar para agradar, muito menos se arriscar para conhecer as pessoas - mas não gostava de conviver com isso, pois achava que assim era a maneira complicada de se viver. Ele queria as emoções que as pessoas comuns têm. Ele acreditava que, sendo comum, as coisas seriam mais fáceis, pois estaria vivendo como todos os outros vivem. Foi quando ele viu que o que todos desejam é ter o fácil. O que todos desejam é ter suas mentes compreendidas sem precisar arriscar a se entregar. O que todos queriam eram ser interpretados sem precisar expor a sua intimidade. Os olhos de raio-x que ele tinha, encantavam as pessoas porque ele as entendia. Agora, sem a visão raio-x, ele não as conquistava antes de conhecê-las. Foi só aí que entendeu que a maneira que vivia era, na verdade, a maneira mais simples. Ele desejou ter o que ele já tinha: o fácil. Agora, ele vivia como todo mundo, sem saber o que esperar dos outros. Vivendo a maneira difícil de se viver. A única coisa que ele sabe agora é que se deve pensar bem antes de se desejar algo, pois, muitas vezes, o que parece ser fácil, não é. "
Texto em homenagem aos olhos azuis, que são sempre belos poemas.


2 comentários:
opa
algumas pessoas, que nasceram com olhos menos azuis e menos poderosos, já aprenderam desde cedo que quase nada é fácil nessa vida. essas, que não chamam tanta atenção pela beleza e se perdem ainda mais facilmente na multidão pela sua simplicidade, é que aprendem, a partir da observação, a enxergar os segredos dos outros. nem é preciso poder especial: só um pouquinho de perspicácia.
ótimo blog, ;)
otavioC
O homem do raio-x.
Interessante esse texto e um pouco familiar este relato!
Casualmente encontrei esse blog, depois de uma breve busca, por uma suposta pessoa a qual eu admirei platonicamente durante alguns intervalos das aulas no CC da FURG.
No início tentei encontrá-la ou descobrir alguma coisa sobre ela,que não sei o motivo mas me chamava muito a atenção.
A expressividade e a simetria de uma menina quase mulher, aquela que com seu belo sorriso consegue deixar indefeso até o mais seguro dos homens, e que parece portadora de um grande segredo, daquele que todos sonham em um dia desvendar.
Por enquanto, continuo a admirá-la no meu silêncio e na prisão da minha timidez, quem sabe um dia poderei conhecê-la.
Gosto de descobri-la aos poucos, mesmo que a distância, e cada vez mais que eu a observo, mais eu tenho me interessado.
Não sei até que ponto essa história sairá do platônico e invadirá o plano do real, mas enquanto isso vou levando a vida e acompanhando o desenrolar dessa situação de camarote.
Infelizmente eu não sou loiro, nem alto e nem tenho os olhos azuis.
Mas por algum momento eu acreditei que fosse eu o homem de raio-x.
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