Eram cd's dos Rolling Stones jogados em uma caixa. Acho que fazia, no mínimo, uns dois anos que ela não ouvia uma música deles, sequer. Os cds estavam jogados em um canto, no quarto. Um canto onde ela colocava as coisas que não usava. Um canto que ela sabia que existia, mas nem parava para notá-lo. Nesse canto, havia livros, fotografias, lenços, outros cds do Rolling Stones, cds de outras bandas, cartas e alguns poemas. Coisas que um dia foram importantes mas, depois de um tempo, passaram a ser insignificantes. Havia um pedacinho dela nessas coisas. Havia lembranças de várias pessoas em cada coisa. Não era a vida dela que estava ali, mas era aquilo que um dia fez parte da sua vida.
Não havia mais importância nessas coisas. Mas ela sentiu saudade dos solos de guitarra que haviam naquelas músicas, e decidiu ouví-los. Ao achar os cds e recordar antigas sensações, automaticamente achou os poemas e os livros que estavam guardados junto com aquelas músicas. Foi quando ela percebeu que ao lembrar de um momento importante na vida, ela lembrava de outros.
Foram cinco minutos de recordações que mais pareciam horas. Eram coisas aos olhos dos outros, mas era vida aos olhos dela. Os Rolling Stones foi a primeira banda que ela ouviu e gostou. Marcou a vida dela em diversos momentos. As músicas que tocavam nos dias chuvosos e nublados, a música que ela ouvia quando saia para caminhar, a trilha sonora quando estava triste ou quando estava animada. Tudo ali, hoje, aparentemente, tão sem importância. Os Stones foram substituídos na vida dela por outras músicas. As canções tristes do Radiohead, o bom e velho Rock N'Roll do Motörhead, a música simples do Ramones e até a voz tão marcante do Chico Buarque - seja lá o que fosse, em um determinado momento da vida dela, foi importante.
As fotos e os poemas, antes com tanto sentimento, agora eram esquecidos. Acho que com todo mundo é assim. Coisas só servem para recordar depois. Saudade pura. Analisou tudo com calma, durante aqueles minutos. "Evoluí. Mas era tão bom aquele tempo..." - pensou.
Desperdiçou exatos cinco minutos da vida dela pensando na própria vida. Recordou não só momentos, como um sentiu um pouco da sensação que tinha naqueles dias chuvosos ao som da banda que ela mais gostava. Nesse momento, a vida já não era presente, era passado. Pensou nas coisas boas, nas ruins, nas dificuldades e alegrias. Pensou no quanto ela mudou. Mudou de aparência; mudou os pensamentos; mudou de vida. Mas ia fazer o que? Juntou todas as lembranças e guardou no canto. Aquele mesmo canto que ela conhece, mas que nunca repara - um canto que era como a vida dela: ela conhecia, mas nem lembrava daquilo que passou. Deu adeus para a velha vida, e oi para o futuro. Ela sabe que, em algum ano dos próximos que virão, o hoje se tornará um ontem e que tudo importante no agora, será apenas recordação.
- Porque hoje, justo hoje, me peguei ouvindo Oasis e pensando no meu velho mundo;


3 comentários:
é, é bem assim mesmo
todos tem aquele canto escuro, abandonado...
ótimo blog! :)
Caramba, volte e meia eu me pego a pensar nessas coisas, agora mesmo, lendo isso, até passou um flashback da época em que nos conhecemos :/
Baita texto Joy, parabéns!
Verdade, volta e meia penso nisso.
Mas assim como discos, livros, fotos e tudo mais existem amigos. Amigos esses que a rotina afasta, e que também fizeram parte das nossas vidas, e hoje estão nesse canto, tão longe e ao mesmo tempo tão perto.
Nunca é tarde para relembralos, essas lembranças ainda existem...
BATATA NO SHOPPING JÁ!!!
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