segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Um olhar infantil.

João Vítor, 9 anos, boas notas na escola, criança quieta e aparentemente feliz. A mãe, orgulhosa, sempre lhe perguntava coisas sobre a vida, na esperança de que o menino, que tocava piano, soubesse mais do que a própria mãe. "O que é o amor para você, João?" Ele respondia: "Eu acho que o amor é uma sementinha que tem no coração das pessoas que cresce, cresce tanto que um dia a gente tem que dar essa sementinha pra outra pessoa." A mãe sorria. Que orgulho do João. Tão especial. Tão, tão... tão pequeno. Lia uma história de castelos e cavaleiros e o menino dormia. João Vítor era chamado de "diferente", mas ele não era diferente, ele era só uma criança. Toda criança tem isso.
_ E a solidão. O que é solidão, Vítor?
_ Solidão é quando a gente quer com uma pessoa mas não pode. Aí a gente fica sozinho...
Acho que João se sentia só. Era só ele e a mãe, durante toda a vida. O pai morrera quando João era pequeno. Só deixou uns brinquedos de lembrança.
A mãe nem tentava lhe explicar o que era a morte; no fundo, sabia que João tinha um pouco de consciência sobre o assunto. "Virou uma sementinha no meu coração, mas não posso dar essa sementinha para ninguém - ela é minha!". Devia ser... o que fazer com o amor quando ele fica só com a gente? Só resta guardá-lo. E a vida tem várias sementinhas dessas que a gente não pode dar para ninguém - por medo, por insegurança, por trauma, por timidez ou por impossibilidade mesmo.
João não tinha muitos amigos. Para ser exato, só um: o Matheus. Também fazia aulas de piano. E Matheus era um daqueles meninos magrinhos, inteligentes, muito parecido com o João. Falava algumas palavrinhas em francês - o que já é muito avançado se for considerar um menino de 9 anos. Usava óculos, um óculos enorme, daqueles óculos que deixavam seu rosto pequeno, e só se viam duas bolinhas negras por trás dos vidros. "Theu" para a irmãzinha.
_ E os amigos, João, o que são os amigos?
_ Eu acho que os amigos são irmãos que a gente tem que não são da nossa família.
"Deve ser" - pensava a mãe. Era solitária. Trabalhava horas e horas para uma miséria de dinheiro. Sua única felicidade era as aulas de piano do João - e o orgulho que ele lhe trazia.
_ Serei um grande pianista, mamãe. Daqueles que têm dinheiro pra pagar as contas e viajar. Vou conhecer a Rússia e te levar comigo, manhê. Se tu quiser, a gente passa pela França... o Theu vai com a gente pra gente entender os franceses.
A mãe ria. Tinha um sorte enorme de ter um filho tão especial.
Ela o cobria com um acolchoado cheio de super-heróis desenhados. Afinal de contas, ele era um menino. E gostava do Homem-aranha. Contava uma história qualquer e o menino dormia.
Oito horas do dia seguinte, Matheus batia na porta. Os dois iam juntos para a aula, todo dia. A escola ficava a uns dois ou três quarteirões da rua deles. E a escola, João? "A escola é onde a gente aprende as coisas importantes." Deve ser, mesmo...
A capacidade do menino captar o que era óbvio deixava a mãe feliz. No dia-a-dia, os adultos perdem a capacidade de ver o óbvio. É a correria da rotina. A maioria das pessoas pensam em cumprir suas obrigações para ter como realizar seus desejos e ambições, e deixam por aí, no meio do caminho, a simplicidade da existência e a alegria de estar vivo. E nem ligam. Mas fazer o que com todo o tempo, que já está escasso? Trabalho, trabalho, trabalho, e quando não trabalham só fazem bobagem. "Adulto é um bicho estranho, meio bravo. Parece que nunca tá feliz." - dizia João.
E quanto a suas ambições, João? "Quero ser feliz e ver mamãe feliz, também. Acho que felicidade é isso, ver quem a gente quer bem, feliz como a gente. E tocar piano, também. E brincar com os amigos. É, acho que é isso. Se não for, é algo parecido. Deve ter algum giz de cera no meio também, porque o giz de cera sempre deixa as pessoas felizes. Os adultos não usam giz de cera, vai ver é por isso que tão sempre bravos..."
Depois da aula, João ia pra casa ver o homem-aranha - e isso o deixava incrivelmente feliz. Porque as pessoas complicam tanto procurando a felicidade?

Alguma coisa deu errado. As crianças já não são mais assim...

* Para quem precisa de um pouco do olhar infantil...

Um comentário:

Anônimo disse...

acho que todos precisamos do espírito infantil.
realmente, um belo texto.